O que dificilmente seria imaginado por alguém, aconteceu em Aurilândia no final do dia 17 de maio. O policial militar Sargento Juvenil Cláudio passou para o outro lado e deu fuga a um preso que cumpria pena na delegacia de Polícia Civil, que fica anexa ao destacamento da Polícia Militar daquela cidade. Para isso o policial protagonizou cenas semelhantes aos melhores filmes policiais.

O fato aconteceu por volta das 19h, no momento em que a comandante do destacamento, Subtenente Wildamar Gabriel, dava entrada a uma ocorrência que ela acreditava estar acontecendo na cidade de Cachoeira de Goiás, pois minutos antes ela recebera uma ligação telefônica dando conta de que um homem estaria de arma em punho colocando em risco a vida de pessoas daquela cidade. A única equipe disponível de Aurilândia foi deslocada para o local.

Quando estava sozinha na sala do comando, a Subtenente foi surpreendida por um indivíduo vestido de camiseta de manga comprida, luvas e toca ninja. De arma em punho ele a forçou a abrir uma das celas da delegacia para dar fuga ao preso Gesley Alves Borges, de 24 anos. Antes de abrir a cela, de acordo com a comandante, o Sargento Juvenil tirou a arma dela do coldre e a entregou ao preso.

Com uma pistola PT-100 sempre apontada em riste na sua cabeça pelo Sargento, a Subtenente Wildamar conta que passou pelos piores momentos da sua vida. No momento de maior tensão quando ela procurava a chave da cela, ela chegou a ser ameaçada pela dupla. Depois da cela aberta o preso saiu e a Subtenente ficou em seu lugar, presa.

Além do susto, a Subtenente teve também a sua arma, uma Pistola Taurus 24/7, levada pela dupla. A audácia dos criminosos chamou a atenção das autoridades. Principalmente a de atentar contra uma colega de farda e amiga há mais de 20 anos.

Em seguida o serviço de inteligência da Polícia Militar entrou em ação e descobriu toda a mecânica do crime. Após a fuga, o Sargento Juvenil teria trazido o preso para São Luís de Montes Belos, onde passaram à noite na casa de uma irmã do policial e que no dia seguinte eles seguiram para a cidade de Acreúna, onde um familiar do preso reside.

De posse das informações, o comandante da 20ª CIPM, Major Sandro, foi para Acreúna com a missão de trazer o preso de volta e elucidar o caso e todos os detalhes. Com o objetivo de resolver a situação da melhor maneira, o Major levou com ele uma irmã e um cunhado do de Gesley. Depois de horas de diálogo, o fujão foi convencido e se entregou. Foi através do depoimento dele que a participação do Sargento foi descoberta.

Imediatamente o comandante decidiu recolher a arma do policial e abriu um Inquérito Policial Militar – IPM –, presidido pelo Capitão Wagner, para apurar o caso. Após concluir que não havia mais dúvida sobre a participação do Sargento no crime, a prisão preventiva do policial foi pedida. Somente no final da tarde desta quinta-feira, 25, ela foi deferida por um juiz auditor, em Goiânia.

Ainda nesta quinta-feira o Sargento Juvenil Cláudio foi encaminhado para um presídio militar, na capital. Antes, ao prestar depoimento no IPM, ele não negou a sua participação no caso. Sobre quem idealizou a fuga, Juvenil disse que foi Gesley quem arquitetou tudo. Ele relatou ainda que foi obrigado a participar do crime porque ele e sua família estariam recebendo ameaças.

Já Gesley afirma que o Sargento Juvenil Cláudio foi o autor intelectual da fuga. Segundo ele, o Sargento queria tirá-lo da delegacia para evitar que outras coisas viessem à tona. Ele conta que anteriormente o policial teria passado para ele, na cela, um aparelho celular para os dois manterem contato. Que com receio de que o comando viesse a descobrir mais esse crime, o ele teria resolvido sumir com ele da delegacia.

Além do Inquérito Policial Militar, o Sargento também é alvo de um inquérito na Polícia Civil, esse conduzido pelo delegado Antonio Machado de Azevedo. Azevedo se recusou a falar com essa reportagem sobre o assunto. Segundo ele, os fatos ainda estão sendo apurados e para não atrapalhar os trabalhos, ele acha melhor falar depois.

A possibilidade de haver uma ou mais pessoas envolvidas no caso não é descartada. Um detalhe importante: até o momento a arma subtraída da Subtenente não foi encontrada. Questionados sobre essa questão, Sargento e Gesley jogam para cima do outro. Nenhum assume que sabe do paradeiro da arma.

Quando ficou sabendo da participação do colega de farda no crime, a Subtenente Wildamar publicou um desabafo em uma rede social no qual ela mostra a sua indignação com quem pensava ser seu amigo. O bandido chegou encapuzado com aquelas toucas ninja, armado, me rendeu lá na sala onde estava fazendo a ocorrência. Se eu falar para vocês quem foi, vocês não vão acreditar, o próprio colega de serviço fez tudo isso, Sargento Juvenil Cláudio. Ele colocou a pistola na minha cabeça e resgatou o preso, tirou o preso e levou, levou o preso para casa dele. No outro dia foi pra Acreúna”, disse ela.

“Não tenho nem palavras para expressar o que eu estou sentindo, um colega ser capaz disso. A gente trabalhou quantos anos juntos? O Juvenil entrou uns dois anos antes de mim na polícia, o resto foi tudo trabalhando juntos. E eu não saber do que o cara era capaz, não tem logica, eu me pergunto até agora, por que ele fez isso? O que está por trás disso?”, indaga a Subtenente.

Na tarde desta sexta-feira, 26, o comandante da 20ª CIPM, Major Sandro, divulgou uma nota falando sobre o assunto. Confira partes do texto.

“Cumprindo com o nosso dever (inclusive constitucional) de manter a transparência dos nossos atos e, principalmente, de manter a comunidade sob nossa circunscrição bem informada, até mesmo para esclarecer comentários incondizentes com a verdade dos fatos, comunicamos que no final da tarde de ontem a Auditoria da Policia Militar (através do Dr Gustavo Juiz Auditor) deferiu a nossa representação pela prisão preventiva do Sgt Claudio Juvenil, o qual já se encontra recolhido (preso) no Presidio Militar da Policia Militar em Goiânia–GO”.

 “Ressalto que o Sgt Juvenil confessou sua participação no resgate de um preso da cadeia de Aurilândia – GO, fato ocorrido no dia 17 último após ter rendido uma colega de trabalho (e destaco que foi apenas um preso, e NÃO, vários presos conforme alguns comentários equivocados que circularam na região)”.

“A comunidade pode ficar tranquila, até porque o preso que havia sido resgatado já foi recapturado pela própria PM, fato ocorrido na cidade de Acreúna, na presença da irmã dele inclusive, pois o referido se apresentou espontaneamente”.

“Faço questão de deixar claro nosso compromisso com a verdade, que a Policia Militar não coaduna com a quebra de decoro ou com atos indevidos praticados por seus membros e se tivermos que cortar na nossa própria carne para manter nossa credibilidade junto a sociedade, assim nós o faremos”, disse Major Sandro.

Essa reportagem também tentou ouvir o Sargento Juvenil Cláudio, mas ele preferiu não se manifestar. O delegado Antonio Machado não permitiu que Gesley falasse antes da conclusão do inquérito. Essa matéria será atualizada antes de ser publicada na versão impressa do A Voz do Povo, que irá circular nos próximos dias.

Por: Edivaldo do Jornal