Operação constatou irregularidades em processo anterior, que está suspenso, e prendeu grupo suspeito. Novo concurso oferecerá 100 vagas para delegado e 550 para agentes e escrivães.

Governo de Goiás autorizou na manhã desta terça-feira (31) um novo concurso para delegado da Polícia Civil. A divulgação ocorre um dia após deflagração da 3ª fase da Operação Porta Fechada, que constatou fraudes no processo seletivo anterior para o mesmo cargo, ocorrido em fevereiro deste ano, e que está suspenso pela Justiça.

O vice-governador José Eliton (PSDB) participou da solenidade representando o estado. De acordo com a assessoria do governo, serão 100 vagas para delegado, além de 550 para agentes e escrivães.

No evento, também foi anunciada a criação de novas delegacias e um programa de combate ao crime organizado, chamado “Goiás Limpo”, que usará bens e valores apreendidos em operações no aprimoramento da própria corporação. Também foi realizada a formatura de 400 policiais civis já empossados em uma seleção anterior e que estavam se preparando na academia da corporação.

As investigações sobre fraude no concurso do início do ano começaram em março. O último desdobramento da operação ocorreu na segunda-feira (30) quando sete pessoas foram presas em Goiânia, Nova Glória e Brasília. Todas elas são suspeitas atuar na compra e venda de vagas.

Entre os detidos, está um ex-servidor do então Centro de Promoção e Seleção de Eventos (Cespe) – atual Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe). Ele aparece em um vídeo manuseando cartões resposta de candidatos que pagaram pela aprovação (veja abaixo).

“Este servidor subtraía o cartão resposta dos candidatos, que entregavam os mesmos em branco e, após a subtração, os preenchia indevidamente e os devolvia para a correção. Assim, os candidatos eram aprovados sem fazer qualquer prova”, disse o delegado Rômulo Figueiredo, responsável pelo caso.

Enem

Ainda de acordo com o delegado, o grupo também fraudou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2016. Ao menos nove candidatos que cursam medicina em universidades do país foram beneficiados após comprar a vaga, que geralmente era vendida por R$ 250 mil.

Uma mulher chegou a pagar por uma espécie de “combo”, cedendo uma casa no valor de R$ 850 mil para a aprovação dela no concurso para delegado e da filha para uma vaga em medicina pelo Enem.

Outro jovem disse, em depoimento à polícia que entregou o cartão resposta com poucas questões respondidas e fez a redação 15 dias depois, quando já sabia o tema, em um posto de combustíveis.

Figueiredo também afirmou que o grupo tinha o intuito de fraudar o Enem 2017, que ocorre nos próximos dias 5 e 12 de novembro.

“Comprovamos que o Enem 2016 foi fraudado. Em todos os concursos eles tentam atuar de uma forma ou de outra. Em alguns casos tem êxito, em outros não. Antecipamos a operação para esta semana visto que estavam planejando, via ponto eletrônico, fraudar o Enem 2017”, afirmou à TV Anhanguera na manhã de segunda.

No entanto, em nota emitida nesta manhã, a assessoria de imprensa da Polícia Civil informou que “não existem indícios concretos de que a organização criminosa investigada tentaria fraudar o Enem 2017, de forma que não se pode colocar em suspeição a lisura do processo seletivo deste ano”.

G1 ligou outras três vezes para o delegado para tentar ouví-lo sobre a questão. A primeira, por volta das 10h, quando ele atendeu e pediu que retornasse posteriormente. Depois, às 10h50, um agente infomrou que ele estava ocupado. Na terceira tentativa, às 13h55, uma escrivã atendeu e disse que ele estava em uma reunião com a direção da corporação.

Advogado do Cebraspe, Marcus Vinícius Figueiredo disse ao G1 que a entidade colabora com as investigações. “Desde quando tomou conhecimento dos fatos, o Cebraspe se colocou à disposição da polícia para cooperar. Os policiais civis de Goiás vieram até a sede e puderam verificar todo o sistema de segurança. Até mesmo as imagens de câmeras de segurança foram divulgadas foram repassadas pelo Centro”, ressaltou.

O que diz o Inep:

“Diante da notícia sobre a prisão, pelas Policias Civis de Goiás e Distrito Federal, de quadrilhas envolvidas em fraudes praticadas contra concursos, entre os quais o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2016, e tentativas para atingir o Enem 2017, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) esclarece:

1-O Inep não foi notificado sobre essa operação, seja para ser comunicado sobre sua realização, já que é o responsável pela aplicação do Enem, seja para prestar alguma informação no sentido de colaborar com as investigações.

2-O Inep oficiou, nesta segunda feira, 30, a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, para obter informações em caráter de urgência, sobre o inquérito que resultou na prisão de envolvidos no Distrito Federal e Goiás, especificamente no que diz respeito ao Enem.

3-A partir das informações obtidas e do que for constatado, o Inep tomará as providências cabíveis, delimitando as responsabilidades, eliminando eventuais beneficiários de esquemas de fraudes na edição de 2016.

4-O Inep reitera que todos as medidas para uma aplicação segura e que garanta a isonomia entre os participantes foram adotadas em 2016 com apoio da Polícia Federal, Exército e policias militares dos Estados.

5-O Inep reforçou o esquema de segurança do Enem para a edição 2017. Pela primeira vez, as provas serão personalizadas, com identificação do nome e número de inscrição do participante. Será usado, de forma inédita, um detector de ponto eletrônico. Além disso, todos os requisitos de 2016 foram garantidos, como a identificação biométrica; o detector de metal nas portas dos banheiros; e escoltas para entrega das provas, inclusive, no retorno.

6-O Enem 2017, assim como ocorreu em 2016, é realizado com uma estreita parceria com a divisão fazendária e o serviço de inteligência da Polícia Federal.”

Fonte: G1/Goiás