Padre Robson chefiou com delegada inquérito feito por ‘baixo dos panos’ contra chantageador, apontam investigadores

Conversa foi obtida após perícia no celular do religioso, que era investigado por desvio de dinheiro da Afipe. Ele sempre negou as irregularidades.

Um inquérito policial conduzido por “baixo dos panos” foi comandado pelo padre Robson de Oliveira, ex-reitor da Basílica de Trindade, com a ajuda da delegada goiana Renata Vieira, segundo o relato de investigadores. Áudios indicam que os dois são amigos e teriam investigado de forma secreta Ubiracimar dos Santos, que tentava chantagear o sacerdote para não divulgar supostos casos amorosos dele.

As conversas foram obtidas após análise dos arquivos do computador e do celular do padre, apreendidos durante a Operação Vendilhões, em agosto de 2020, sobre o suposto desvio de dinheiro doado por fiéis à Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), que ele presidia. As gravações passaram por perícia, a qual, segundo investigadores, confirmou a identidade dos envolvidos. A data em que os áudios foram feitos não foi divulgada.

A assessoria de imprensa do padre Robson Oliveira disse em nota, nesta terça-feira (23), que ele “é vítima neste caso” e não “há nenhuma irregularidade em ser amigo da delegada ou de outra autoridade”.

G1 não conseguiu contato com a delegada nesta terça-feira (23). Porém, em nota enviada na segunda (22), Renata Vieira disse que é amiga do padre desde 2009 e foi responsável pela investigação para apurar eventual crime de extorsão no ano de 2019, no qual o religioso constava como vítima. Ela informou que foram obedecidos todos os trâmites legais, com autorização dos superiores. O inquérito não foi concluído, pois ainda depende de decisão judicial.

A Polícia Civil já está com alguns dos documentos e mantém a delegada afastada da chefia da Dpca/Deam de Trindade. A delegada foi colocada à disposição da 16ª Delegacia Regional de Polícia (DRP) de Trindade para nova lotação enquanto aguarda a apuração dos fatos pela Gerência de Correições e Disciplina (veja nota ao final).

O delegado-geral da Polícia Civil, Alexandre Lourenço, disse que a apuração da conduta da delegada “está a cargo integral da corregedoria”: “É preciso ter cautela para que não sejamos injustos nem levianos”. Ele diz ainda que o departamento “precisa de um tempo para fazer toda essa apuração e chegar à conclusão possível à cerca dos fatos”.

G1 não conseguiu contato com Ubiracimar dos Santos, citado nos áudios, até a última atualização dessa reportagem.

O religioso segue afastado das funções na igreja. O processo contra ele e outros suspeitos foi interrompido por decisão judicial, mas o Ministério Público recorreu ao Superior Tribunal de Justiça.

Extorsões de dinheiro

Segundo processo judicial, o padre foi alvo de cinco extorsões de dinheiro por um hacker e chegou a passar R$ 2,9 milhões da Afipe ao criminoso, o que deu início à investigação sobre desvio do dinheiro de doações. A defesa do padre afirma que o conteúdo usado para chantagem era falso.

Ubiracimar dos Santos, conhecido como Bira, ficou sabendo das chantagens por meio da esposa, que é jornalista, e teria decidido chantagear o padre também. Assim, de acordo com os investigadores, surgiu a investigação particular do padre e da delegada contra ele.

Em uma das conversas, a delegada explica que a investigação contra Bira ainda estava “off-line” na delegacia porque ela não baixou nenhuma portaria oficial à época. O padre, por sua vez, sugere que o homem seja chamado para um interrogatório ou que seja marcado um encontro entre ele e o chantageador.

Renata Vieira: “Eu ouvi você no Word, está tudo off-line, ou seja, fora do sistema. Não tem nada ainda. Não baixei portaria. Até agora está tudo como se não existisse nada na delegacia. Eu estou ouvindo sozinha e fora do sistema”.

Padre Robson: “Aí você o chama para ser interrogado, a gente vê o que faz ou marca um dia de entrega do suposto valor. Aí sim fazemos o flagrante com bastante informações, que é o que nós temos, mas não é o suficiente. O que você acha?”

Um áudio que teria sido gravado pelo padre indica que Renata Vieira sabia detalhes do encontro com o suspeito.

Delegada: “Se você quiser também eu posso mandar um policial da minha extrema confiança para acompanhar você ou ficar por perto”.

Padre Robson: “Doutora, vamos fazer o seguinte: não precisa de policial não, eu vou deixar uma pessoa armada lá caso ele esteja a me ameaçar com alguma coisa. Ele não vai me ameaçar com arma. Eu não acredito nisso mesmo, até porque você sabe que ele é um bobão”.

Renata Vieira: “Estou vendo que ele é meio bobão mesmo”.

De acordo com a gravação, o religioso marcou um encontro com Bira para saber o que ele tinha em mãos, como foi revelado pelo Fantástico no domingo (21).

Padre Robson: “Você não abaixa esse valor de 500?”

Bira: “Não”.

Padre Robson: “Então vamos combinar R$ 200 mil. Anota meu telefone aí. Você vai pensar esse valor melhor”.

Os investigadores não informaram, porém, se Bira chegou a ser preso ou investigado formalmente e quais informações teria contra o padre.

De acordo com os investigadores, em uma mensagem de voz da delegada para o padre, ela conta sobre o andamento do inquérito: Se for o caso, por exemplo, você fala esse negócio dessas telecomunicações, que eu não olhei, para não dizer: ‘Renata, tem dez papéis lá que fala da telecomunicação e isso eu não queria que ninguém visse’. Dá tempo de a gente tirar entendeu?”

Depois, padre Robson fala sobre a imagem dele, conforme os áudios.

“Apesar de eu não dever nada para ninguém, eu sou uma pessoa pública, eu tenho que cuidar da minha imagem. É o meu maior patrimônio, né”, diz o religioso.

Missa de 15 anos

Segundo investigadores, a relação do padre Robson com a delegada Renata ia além da polícia. Eles encontraram em gravações de áudio e mensagens de texto detalhes de uma relação de amizade entre os dois.

Eles eram tão próximos que a troca de favores foi também para família da delegada, segundo os investigadores. Ela convidou o religioso para celebrar a missa de 15 anos da sobrinha. Os áudios mostram a conversa entre os dois.

Renata Vieira: “Pelo amor de Deus, não desiste de mim, não mude de ideia. Acho que você vai tirar muito do brilho dessa festa, a sua ausência”.

Mesmo com a insistência da amiga, padre Robson se mostrou preocupado com a aparição pública.

Padre Robson: “Estou meio preocupado com isso, inclusive, já comprei a passagem e tudo, mas eu acho que você vai se expor e eu também”.

Em seguida, Renata Vieira sugere: “Às vezes, a gente evita de tirar foto com você entendeu”.

O padre concordou e celebrou a missa de 15 anos da sobrinha da delegada em Pernambuco.

G1 questionou à Arquidiocese de Goiânia se o padre pode realizar celebrações em outros estados e aguarda retorno.

O favor do padre, celebrando a missa para a sobrinha da delegada, segundo os investigadores, pode ter sido retribuído na investigação da chantagem do Bira.

Investigação

Padre Robson era investigado na Operação Vendilhões, que cumpriu mandados de busca e apreensão em agosto de 2020, para apurar crimes como lavagem de dinheiro, apropriação indébita e falsidade ideológica nas “Afipes”, associações criadas por padre Robson e que movimentaram em torno de R$ 2 bilhões em dez anos.

De acordo com a investigação, os valores deveriam ter sido usados na construção da nova Basílica de Trindade. Porém, foram usados, entre outros fins, para a compra de fazendas, um avião e uma casa de praia.

Em dezembro de 2020, padre Robson e outras 17 pessoas foram denunciadas por organização criminosa, apropriação indébita, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Porém, o processo foi bloqueado pela Justiça.

Nota da Polícia Civil

A Polícia Civil de Goiás informa que a Gerência de Correições e Disciplina analisa os autos do inquérito policial instaurado para investigar possível crime de extorsão no qual figura como vítima o Padre Robson de Oliveira, ex-reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno, em Trindade. O

inquérito foi instaurado pela delegada Renata Vieira quando titular da DPCA/Deam de Trindade. O procedimento, que está agora com a Gerência de Correições e Disciplina da Polícia Civil, foi alvo de correição efetuada na última sexta-feira (19), que visa apurar possível irregularidade praticada pela referida delegada em sua condução.

A delegada foi colocada à disposição da 16ª Delegacia Regional de Polícia (DRP) de Trindade para nova lotação enquanto aguarda a apuração dos fatos pela Gerência de Correições e Disciplina, que deve ouvi-la nos próximos dias. Por fim, a Polícia Civil reitera seu compromisso com a legalidade e moralidade administrativas, bem como com a celeridade necessária à apuração de fatos desta natureza.

Fonte: G1/Goiás

PROPAGANDA

Compartilhar

Share on facebook
Share on twitter
Share on email