Temor de violência eleitoral faz Exército mudar planejamento para 2022

Força adianta exercícios para liberar tropa, preocupada com polarização e até ‘cenário Capitólio’

Temendo incidentes de violência na eleição de outubro ou depois do pleito, o Exército Brasileiro decidiu alterar o seu cronograma de trabalho em 2022.

Todos os 67 exercícios militares principais previstos para o ano, que se concentram no último trimestre, foram adiantados e deverão ser executados até no máximo setembro. Depois disso, todo o efetivo da Força tem de estar à disposição para eventuais necessidades. Já houve situações semelhantes na década de 1990, mas decorrentes de falta de dinheiro para manter todas as operações e o trabalho na eleição. Mudança por risco percebido é algo inédito.

As conversas do Alto-Comando do Exército sempre giram em torno do tema da polarização, levando em conta o cenário atual das pesquisas eleitorais. Ou seja, uma disputa em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sai com favoritismo, buscando ganhar no primeiro turno, e na qual o atual titular do Planalto, Jair Bolsonaro (PL), ainda ocupa a segunda posição, apesar da precariedade da curva de seus números.

Generais e outros oficiais temem que a animosidade que consideram inevitável entre os dois grupos possa descambar para incidentes pontuais de violência ou contaminar discussões nas disputas estaduais —levando ao eventual pedido de socorro às Forças, que já estarão mobilizadas para o pleito deste ano.

Mais reservadamente ainda, esses chefes militares especulam sobre como os apoiadores de Bolsonaro, que veem como mais radicalizados neste momento, irão reagir se o líder perder a eleição ou nem se qualificar a um eventual segundo turno.

É o famoso “cenário Capitólio”, embora haja dúvidas acerca do real risco de isso acontecer nos dois meses restantes deste mandato do capitão reformado do Exército, em que pese a incerteza acerca das mais bolsonaristas polícias militares.

O termo é referência ao episódio de um ano atrás, quando em 6 de janeiro de 2021 partidários de Donald Trump invadiram o Congresso americano e interromperam a sessão que ratificaria a derrota do presidente republicano para o democrata Joe Biden, ocorrida no novembro anterior.

Há meses, políticos e militares discutem a hipótese, ante a desidratação da aprovação e da intenção de voto de Bolsonaro, que segundo o Datafolha tem os mesmos 22% nos dois quesitos.

O ex-ministro da Defesa e da Segurança Pública Raul Jungmann alertou em um artigo na Folha, em junho passado, para o que chamou de “pior cenário”.

“Imaginemos o seguinte cenário: o atual presidente não se reelege e, como já vem fazendo, acusa o sistema eletrônico de votação de fraude, exigindo a anulação do pleito. Seguidores radicais seus, dentre eles militantes, policiais, caminhoneiros etc., entram em choque com manifestantes da oposição”, especulou.

Nessa visão, o governador do estado em que o fato ocorre entra em pânico e pede uma GLO (Operação de Garantia da Lei e da Ordem) para conter a crise. Bolsonaro se recusa a mandar as Forças Armadas, o chefe estadual procura ajuda do Supremo e um gravíssimo impasse constitucional está colocado.

No meio de tudo, estariam os militares. Segundo a reportagem ouviu de altos oficiais, não só do Exército mas também de outras Forças, tal hipótese é vista como bastante improvável.

Eles citam o fato de que as manifestações golpistas do presidente no 7 de Setembro passado não descambaram para violência, apesar das ameaças de caminhoneiros presentes em Brasília.

A ausência de incidentes naquele momento foi um momento de alívio para os militares, altamente expostos desde que o capitão reformado do Exército deu um caráter fardado a seu governo com o apoio do setor, povoando ministérios e órgão com oficiais da reserva —mas também da ativa, o que causou uma associação inevitável.

A turbulenta passagem do general Eduardo Pazuello pelo Ministério da Saúde, e a isenção que ganhou após ferir o código militar participando de ato de apoio a Bolsonaro já fora da pasta, só fez crescer a percepção.

Observadores da cena militar apontam, contudo, habilidade política do atual comandante do Exército, general Paulo Sérgio Oliveira. Enquanto seu antecessor, Edson Pujol, fazia questão de estabelecer a risca entre serviço ativo e reserva, além de criticar a politização da Força, PS, como é conhecido, joga sobre o fio da navalha.

Tem dado certo, já que Bolsonaro sempre usou a relação com os militares em seu cabo-de-guerra institucional com o Supremo e com o Congresso, chegando ao paroxismo do ano passado. Pujol caiu em março passado, levando consigo toda a cúpula militar, mas até aqui PS evitou maiores marolas.

Também não parece haver clima para o tipo de interferência no ano eleitoral induzido pelo famoso tuíte do ex-comandante Eduardo Villas Bôas em 2018, quando o general pressionou o Supremo Tribunal Federal a não conceder um habeas corpus que impediria a prisão de Lula.

Isso dito, a tropa segue majoritariamente bolsonarista do ponto de vista político, na avaliação de observadores, com um grupo tendendo a se empolgar com o ex-juiz Sergio Moro (Podemos), cuja candidatura está na pista.

A crítica a Lula se mantém, principalmente pelas acusações de corrupção em seus governos, embora os fardados mais graduados sempre citem anos do petista como um período de vacas gordas orçamentárias. Mas todo oficial-general da ativa diz que será prestada continência a qualquer pessoa eleita em outubro.

Militares atuaram em todas as eleições recentes

Desde que o instituto da GLO foi criado, para a conferência ambiental Rio-92, os militares foram chamados para atuar em todas as eleições —e também em pleitos suplementares e no referendo do desarmamento, somando 23 atuações, ou 16% do total de 144 ações do tipo nestes anos.

O Exército é o ator majoritário por ser a Força terrestre por excelência e somar cerca de 60% dos 360 mil militares brasileiros. Mas marinheiros e aviadores também participam, até porque cada um dos oito Comandos Militares do país tem sua própria característica. Não há, contudo, decisão sobre mudança de calendários nessas outras Forças.

Em eleições na Amazônia, os desafios logísticos se impõem, como levar urnas a comunidades distantes. No Rio de Janeiro, às vezes é preciso garantir o acesso de candidatos a regiões controladas por criminosos. Na eleição presidencial de 2018, foram mobilizados quase 30 mil militares a um custo corrigido de R$ 65,5 milhões.

Essas GLOs específicas são chamadas de GVAs (Operações de Garantia de Votação e de Apuração) —​o segundo item da sigla vai de encontro ao problema citado por Jungmann em seu texto.

Desde que recuou da apoplexia golpista e firmou sua aliança com o centrão para evitar o risco de um impedimento, inclusive filiando-se ao PL e loteando o governo ao grupo, Bolsonaro baixou o tom de confronto contra o sistema eleitoral. Mas poucos duvidam, no mundo político, que o tema irá ressurgir.

Nesse contexto, a colocação do ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo, general da reserva, na direção do Tribunal Superior Eleitoral é vista por políticos conservadores e militares como uma espécie de seguro contra contestações contratado por Alexandre de Moraes, o ministro do Supremo que irá tocar as eleições.

Vozes à esquerda viram nisso interferência indevida, mas outros observadores apontam que, desafeto demitido por Bolsonaro ano passado mas com quatro estrelas sobre o ombro, Azevedo será um contrapeso a críticas.

Acerca das manobras militares, não está certo se todas terão como ser cumpridas até setembro. Elas ficam para o final do ano para justamente completar o calendário definido no PIM (Programa de Instrução Militar) do Exército, por serem a culminação de um processo de aprendizado e treino.

Em 2021, foram 57 dessas operações. Conhecidas como ações de adestramento avançado, elas servem para treinar os militares para situações específicas de emprego em combate, como simulações de conflitos, desembarques, aerotransporte, comando e controle em campo.

 

Fonte: maisgoiás

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